Na farmácia, às dez da noite, a operadora de caixa. Crédito ou débito? Débito. Ela olha para a maquininha com um certo desgosto e alguma esperança. A senha. Suspira e ri de si mesma. Eu costumava achar tão bonito o papel saindo da maquininha…

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faz tanto tempo que você não dava as caras e hoje você volta assim. eu lavando louça, com minhas luvas rosa-choque. nem acredito que vi você de novo batendo a minha porta. desde quando tudo o que eu tinha na vida era uma mala, um computador e uma TV ligada no chão você não aparecia! as coisas mudaram um bom tanto, mas foi só você voltar que tudo voltou ao seu lugar. benza deus! agora tudo faz sentido novamente.

se eu estivesse no jardim dos caminhos que se bifurcam, eu certamente teria entrado em algum caminho do labirinto que voltou exatamente ao ponto em que eu estava. achando que estava indo adiante eu só estava mesmo era voltando àquele lugar. hoje voltei, assim como você voltou. e tenho novamente aquela sensação de que há um mundo novo depois do primeiro passo.

foi bem naquele momento. eu abri a geladeira e você estava lá, naquela portinha do congelador que sempre quebra e se revela inútil. aquela portinha que eu quebrei quando fui a sua casa pela primeira vez, me achando a dona do pedaço, fui assuntar na sua cozinha, a única mulher-moderna com coragem suficiente para cozinhar, para ser a mulherzinha da turma. senti tudo aquilo novamente. você não brigou comigo porque quebrei a sua portinha do congelador e agora quis o destino que eu tivesse uma geladeira exatamente igual, pero sin puertas. más de lo mismo.

voltei, porque tudo volta.

Aquela portinha que sempre quebra

Aquela portinha que sempre quebra

Até você viver um tempo na fronteira, você pode não se dar conta do que realmente significa morar muito perto de dois outros países, bem no limite do seu próprio país.

Além da diferença óbvia – você pega seu carro, anda 10 km e já está em um lugar onde as pessoas falam outro idioma e agem de forma estranha – há outras diferenças um pouco mais sutis. Quando eu morava em Curitiba, o local mais próximo para uma “escapada” de fim de semana era o litoral. Vivia enclausurada entre a serra e o imenso oceano que eu não poderia explorar.

Mudei-me para a fronteira e me dei conta de que estou mais perto de Asunción do que da minha cidade natal. Com esse tamanho tão gigante, dificuldades de transporte e grandes distâncias, o Brasil me expulsa pelos seus limites. Um dia peguei o avião em Puerto Iguazú e em pouco menos de duas horas já estava em mi Buenos Aires querido! Um fim de semana na capital portenha, para desopilar. Sair daqui para o exterior é muito mais fácil. Criei uma tal familiaridade com aduanas, pasos e documentos fronteiriços que eles não são mais um impedimento às viagens. São facilidades que me autorizam a explorar novos caminhos.

E um dia você chega à conclusão que está tão profundamente modificado por essa vida fronteiriça que ir mais além, para você, é bem mais fácil que pensar em voltar atrás.

Não sei se já contei isso antes para alguém, mas quando eu tinha 16 anos e estava começando o terceirão um amigo de turma muito próximo e que eu era “afins” morreu. Assim. Sem explicação. Na verdade foi um jeito bem bobo. Ele estava cortando a grama num dia de sol, passou com o cortador sobre o fio da energia e foi eletrocutado. Foi horrível.

Depois, mais tarde, alguns outros amigos meus bem íntimos também morreram. Sempre que penso neles, penso em seus segredos que estão guardados comigo e que foram para o túmulo com eles. Se eles fossem escrever as suas Memórias Póstumas, certamente algumas passagens se refeririram a mim. Será que devo revelar esses segredos a alguém?

Nada só acontece aos que não saem de casa.

“Marcelo! Marcelo! Venha levar CHUMBO GROSSO no rio Paraná!

Hoje, depois de alguns dias com o fígado de mau humor, resolvi sair para caminhar, tomar um sol, nesses poucos dias quentes de inverno. Ao atravessar a rua, um homem alto, gato, com uma mochila verde e olhos azuis chega perto de mim e pergunta: Dónde hay un parque por acá? 

O mochileiro gringo estava cansado, devia estar com sede, e queria descansar à sombra. Com minha tradicional simpatia e meu espanhol em progresso, disse ao rapaz que me acompanhasse, afinal eu estava indo para uma pista de caminhada onde havia algumas árvores e uns bancos em que ele poderia se sentar.

Ele gesticulava bastante e perguntei de onde ele vinha. Disse que era italiano, vinha de Roma e por conta dos desentendimentos provocados pelo caso Battisti não poderia renovar o visto para continuar no Brasil. Eloquente, ele chegou a argumentar com o agente da Polícia Federal. Disse que inclusive apoiava a decisão do Brasil em não extraditar e libertar o comuna. Mas não teve jeito. O romano estava desolado porque teria que voltar à Bella Italia – não o hotel, o país mesmo.

Andando e conversando, ele ia me contando sobre as cidades brasileiras que já tinha visitado. Sem me conhecer direito, disse que eu gostaria muito de ir à Roma.

Sei.

E então me contou com a maior naturalidade, que desceu a barranca do rio Paraná para TOMAR BANHO. Bem ali, na fronteira entre Brasil e Paraguai, ao lado da favela da Marinha. Ai, esses mochileiros estrangeiros comunistas demi-hippies…

Es muy peligroso! Eu disse. Ele arregalou os olhos azuis e continuou. Falou que viu o rio de longe e decidiu se banhar. Perguntou a uma senhora que estava sentada em um banco na frente de uma casa e ela disse que era muito seguro por ali (Ela deve ter imaginado que ele fosse paraguaio com muamba, ou devia ser a dona da boca…). Então ele foi se chegando, descendo a barranca… já se despindo… E de repente foi abordado por quatro homens que, muito sutilmente, deram um CORRIDÃO no gringo. Isso eu não sei nem em que língua foi.

Decerto, como bom romano, quando viu o rio Paraná, achou que estava diante algo equivalente à Fontana di Trevi e quis não lançar apenas uma moedinha, mas o corpo todo em sacrifício à Virgo do aqueducto… quase que leva chumbo grosso, tanto de polícia quanto de contrabandista.

Ainda escrevo um manual para mochileiros no Brasil.

Vou aqui escrever um post para derrubar o mito que mulher adora discutir a relação. Coisa que mulher gosta mesmo é receber flores, sms carinhoso no meio do dia, telefonema na madrugada, presente de surpresa, de preferência uma jóia… discutir a relação é coisa do passado. Mulher só discute a relação quando não recebeu nenhum dos itens citados acima. E receber ao menos um dos itens citados acima suspende prontamente qualquer “discutição”.

Muito bem. Apesar disso, estava eu sem ter muito o que fazer aí esses dias, resolvi escutar música. No iTunes, Trem das Onze, um clássico. Tão clássico que eu nunca havia parado para refletir muito sobre o galã que mora em Jaçanã. Pois exatamente nesse dia o personagem começou a falar diretamente para mim. Me imaginei em uma DR com o cara. Sim, porque só depois de uma DR para o cara dizer que precisa ir embora antes das ONZE da noite! Que tipo de namorico é esse?

O sujeito já começa dizendo que se ele perder o trem, só amanhã de manhã… como se ISSO fosse um problema! Ora, todo mundo sabe que em início de namoro perder o último trem sempre foi a solução perfeita, a desculpa para passar a noite fora de casa. E é claro que a moça em questão sabe muito bem disso. Como, de uma hora para outra, de repente, ele simplesmente NÃO PODE mais perder o último trem? Faça-me o favor!

Mas a pior parte é mesmo quando ele se justifica citando a MÃE dele. Afinal nada pior que um homem que ainda não assumiu a própria vida e precisa ficar dando satisfação para a mamãezinha. Tinha que ser filho único mesmo!

Resumo da ópera: o cara já tava querendo acabar com esse namorico frouxo aí e começou a dar desculpa esfarrapada.

Na natação basicamente há dois tipos de virada, que é quando a gente chega na beira da piscina, mas quer continuar nadando. Tem a virada simples, que é simples, e a virada olímpica, que é complicada e restrita aos experts, profissionais, que é a que o Gustavo Borges faz.

Bueno. Quando aprendi a nadar – meu Deus, isso faz bem mais que dez anos! – fui aprendendo nessa ordem: nado crawl, costas, peito e golfinho. Aprendi também a virada simples. Mas, quando fui aprender a virada olímplica, que é a complicada, não deu certo. Antes de aprender a fazer a virada olímpica, você precisa aprender a virar cambalhota dentro da água. Que é uma coisa extremamente difícil e complicada, simplesmente não dá pra fazer.

As instruções são simples. É só prender o ar, pegar um impulso e virar cambalhota na piscina. Voilá! O fundamental é ir soltando o ar devagarinho, enquanto você vê o mundo subaquático girar. Se você não fizer isso, vai entrar muita água no seu nariz enquanto você perde a noção de tempo e espaço e quase se afoga e não lembra mais qual é o seu nome e precisa ser retirada às pressas da piscina e todos olham para aquela pessoa que não conseguiu fazer o que as crianças de cinco anos vivem fazendo na piscininha infantil.

Ok ok. Assumo que fiquei traumatizada quando tentei dar a primeira cambalhota dentro da água. Foi péssimo. Desde então nunca mais ousei aprender a virada olímpica. Nunca mais até hoje.

O professor de natação, depois do treino, falou: agora, pra finalizar, todo mundo treinando cinco minutos de virada olímpica. Lógico que não fiz nada e disse: professor, eu não sei fazer a virada olímpica. Então o professor entrou na piscina depois da aula e me ensinou a fazer a cambalhota e então eu consegui e aprendi a fazer virada olímpica, que, na verdade, é muito simples.

Poucos sabem, mas além de uma codorna, um pintinho e um coelho, eu já tive um camarão de estimação. Foi na época que a minha mãe mantinha um aquário em casa. Eu olhava aquela caixa de vidro cheia de água, plantas aquáticas, pedrinhas e peixes coloridos e aquilo não provocava nenhum sentimento em mim. Mas um dia, isso mudou.

Estávamos no glorioso litoral paranaense, se bem me lembro em Praia de Leste, eu e meu irmão. Andávamos, bem cedinho, na praia. Bem cedinho mesmo, pois a tonalidade da pele da caçula chata era muito branca e não permitia que a família acordasse tarde para ir à praia. Andávamos, com um baldinho e uma pazinha de plástico, em busca de conchinhas para decorar nosso futuro castelinho e… encontramos um camarão! Na areia! E não estava na panela, nem empanado, nem boiando em uma moqueca! Aquilo foi incrível! Ele até estava respirando! Meio desmaiado, coitado, mas respirando.

Rapidamente enchi o baldinho de água e fizemos uma operação salvamento para o pequeno crustáceo. Só que o baldinho era amarelo e não dava pra ter certeza se o camarão estava recuperado. Então cortamos a parte de baixo de uma garrafa de água e o colocamos lá. Aí sim foi possível vê-lo mexendo as anteninhas e dizendo obrigado crianças!

A temporada foi legal, ficamos com o camarão… mas, na hora de subir para Curitiba… o que faríamos com o coitado confinado na garrafinha de Ouro Fino? Claro que a mãe, já tentando antecipar o que aconteceria, disse que ele não sobreviveria à viagem (!?!). Mas não havia desculpa, afinal, havia um aquário em casa. A única dúvida que pairava sobre nossas pequenas cabeças era se um camarão de água salgada conseguiria se adaptar à água doce e aos seus novos companheiros coloridos e ao terrível Acará.

Chegando em casa, colocamos o Táceo no aquário e ficamos apreensivos. Todo dia de manhã eu acordava e ia direto ver se o Táceo ainda vivia. Nossa, todo dia era uma alegria nova ao ver que ele mexia as anteninhas e ainda colaborava para a limpeza do local. Se mexia sempre devagar para não assustar os vizinhos. E o dia da maior emoção foi quando o Táceo MUDOU DE CASCA! Nossa, aquilo era realmente incrível. A casca ficava lá, pairando na água, inteira, enquanto ele desfilava sua nova forma mole, mas muito maior que a anterior. Chegava a pensar se ele era mesmo daquele tamaninho antes da troca… a cada nova troca de casca, como ele cresceu!

E eu que não tinha a menor ideia sobre o quanto um camarão poderia viver, vi o que, presumo, seja a morte natural dos camarões. Uma vida que não acaba na panela, regada a limão nem espetada em um palito, ou mesmo abraçadinha. Ela acabou ali no aquário, quando ele cresceu demais e não teve forças para sair da casca mais uma vez.

Como vocês todos sabem, (o velho truque de tratar uma notícia nova como se todos já soubessem… para diminuir o impacto, se é que você me entende) sou geneticamente propensa a ter varizes. Sim, e isso está sendo motivo de preocupações de minha parte. Me consulto com especialistas, procuro sites na internet, compro remédios milagrosos no Paraguai (um contrabandinho, convenhamos…) todas essas coisas.

A última moda em remédio preventivo para varizes é um “complemento alimentar” que possui os flavonóides do vinho. Tá, na verdade o rótulo só fala da videira, mas videira, uva, vinho… é tudo a mesma coisa. Então, esse flavonóide é poderosíssimo para reforçar as paredes dos vasos e artérias e mantê-los saudáveis. E é exatamente isso que eu quero para minhas pernas, para que mantenham-se sempre lindas e para que eu não pareça um mapa hidrográfico daqui a alguns anos.

Pois bem, o tal complemento alimentar, um vidro com 30 cápsulas, custa cerca de 70 reais. Calculando que o preço de um bom vinho em Porto Iguaçu é de 20 pesos, 10 reais, eu poderia tomar sete garrafas de vinho por mês com o preço da preciosa fórmula… hummm

Desde ontem estou fazendo meu próprio tratamento. Adotei vinho como acompanhamento no jantar.

E já que vou tomar um vinho, aproveito e exercito meus conhecimentos culinários, afinal o vinho precisa ter um prato a altura. Ontem foi omelete de gorgonzola com champignon. Hoje foi risoto de 7 cereais com abobrinha e pastrami.

Amanhã? Só Deus saberá!

Engraçado quando a gente sonha um sonho recorrente. Eu, por exemplo, sempre sonho que estou perdendo todos os dentes de uma vez só. Nas primeiras vezes acordava toda assustada, entrava em sites sobre sonhos premonitórios, consultava dicionários de sonhos para saber o que significava sonhar com dente caindo. Era sempre uma aflição.

No início do sonho eu sentia a mesma coisa de quando o dente de leite ficava mole e caía. Eu gostava tanto daquela dorzinha na gengiva… ficava mexendo o dente com o dedo, com a língua, salivava tanto… No sonho todos os dentes ficavam moles de uma vez só. Eu gostava, mas depois pensava que todos iam cair ao mesmo tempo dali a pouco. Aí era a hora do horror e eu puf! acordava.

O sonho recorrente foi evoluindo e indo cada vez mais além. Hoje sonhei de novo. E é tão familiar esse sonho que, dentro do sonho, eu penso putz, lá vem aquele sonho com dente mole! Eu sempre acordava antes dos dentes caírem, só com o pavor de ficar sem dentes assim de repente.

Hoje sonhei de novo o sonho. E terminei de sonhar. E sabe o que aconteceu depois que os dentes caíam?

Já tinham outros no lugar!

Rá! Tanto pavor por NADA!