Faz muito tempo, eu vinha andando bem calma pela rua, depois de uma quinta-feira de trabalho e alguns problemas pessoais. Eu poderia ter pego o ônibus num ponto mais perto, mas resolvi andar por aquela parte decadente do centro da cidade, com a qual minha alma estava combinando tanto aquele dia.
Por isso, por um sentimento de pertencimento, e também por dois policiais militares ali na lanchonete gordurenta, engordurando seus quepes, eu me sentia segura. Já tinha passado por muitas cidades e reconhecia que essa era definitivamente a minha cidade, com estação tubo e tudo.

Não sei porque estranhei tanto esta cena que virá a seguir. Na verdade eu vinha pela calçada pensando porque aquela maldita loja do Chico, que vende aquelas velharias para quem tem carros caindo aos pedaços, mas insiste em colocá-los para rodar nesse trânsito caótico, porque diabos aquela loja estava fechada. É óbvio que ela estava fechada porque já passava da hora que os funcionários fecham os escritórios e vão para casa. Àquela hora, os funcionários do centro já deviam estar em casa, ou se apertando em algum Colombo-CIC rumo à região metropolitana. Mas sabe que eu estava com aquela música do Cazuza na cabeça. Ah é, daquele viado? Que porra, viado é você, um cara de bosta. Esse cara era um gênio, toda a merda que você escrever na vida não vai chegar nem perto da pior cagada que esse cara escreveu. Então, preste atenção, sabe aquela música codinome beija-flor? Sei, eu até gosto do Cazuza. Então, a letra da música diz assim desperdiçando meu mel, devagarzinho, flor em flor, entre os meus inimigos, beija-flor. O cara escreveu essa música prum cara que ele apelidou de beija-flor e sabe porque? Não, nem sei. É claro que você não sabe, você nunca leu um livro na vida. É um ignorante. Então ele chamava o cara de beija-flor porque o cara beijava o cu dele e ele achava o máximo. Acontece que o cara era um galinha, porque, você sabe, você é um ignorante mas já deve ter visto um beija-flor. Já já vi sim. Então, o beija-flor sai por aí de flor em flor. Mas só ele podia chamar o cara de beija-flor, saca? Mas você não entende nada de música, nem sei porque estou falando isso para você, é como jogar pérolas aos porcos. Termine o seu café que a gente vai por ali. Preste atenção nos detalhes. Tudo bem vou prestar. Eu tava andando por aqui, esse é o lugar mais fedorento e odioso dessa cidade. Tudo é limpo, mas por mais que os garis varram, nunca vão tirar esse fedor de mijo e vômito que a cada madrugada os bêbados e as putas derramam aqui. Sem falar na merda que os mendigos cagam. Você pode passar aqui ao meio-dia que o fedor ainda vai continuar. A tia da banquinha de doces ali na esquina todo dia joga creolina e esfrega a calçada, mas não adianta nada. De noite são os bêbados e de dia são os camelôs, centenas deles, vendendo porcarias made in china. Quando as lojas fecham e os camelôs vão embora o fedor fica ainda mais pestilento nesse terminal, e tava tudo fechado quando passei aqui naquele dia. Nesse tubo fica uma fila de gente que não cabe naquela merda de estação de vidro que parece um shopping. Tão na merda, mas o vidro é curvado. Dois caras saíram da fila de repente, um pit boy de academia e um cara normal, como eu ou você, com aquela camisa de manga curta, transparente de tão puída, e uma capanga de couro. Ver a capanga foi demais pra mim. O cara levando porrada com a capanga debaixo do braço. O pit boy segurou o cara pela gola da camisa e deu umas cinco joelhadas no estômago do homem, até meio barrigudo. Pelo jeito que o cara batia com certeza ele fazia muay thai. Aquelas lojas fechadas, o povo todo na fila, mas ninguém falava nada, o silêncio fazia eco. Depois que o cara cansou das joelhadas, começou a dar socos na barriga do sujeito, que também não gritava, não pedia socorro, se limitava a proteger a cabeça com a mão que não estava segurando a capanga. Foram muitos socos, um barulho seco. Até que o pit boy acertou a cabeça do homem com um soco. Fez barulho, e o homem gritou. Deve ter doído na mão do pit boy também, porque foi aí que ele parou. Soco é para partes moles, não pra mirar na cabeça, o pit boy não deve ter muitas lutas no currículo, e na academia ele deve lutar de luva. A mão é frágil, tem muitos ossos, e o crânio é feito para agüentar porrada. Mas deve ter cortado o couro cabeludo do cara, porque ele urrou e se agachou, sangrando como um porco, o sangue escorria e fazia barulho e respingava quando caía no chão. O pit boy saiu andando de costas e falou ‘quero ver passar a mão na bunda dela agora, palhaço’. Aí chegou uma cachorra de blusa decotada e calça branca, bem putinha. E eu me perguntando onde essa vaca estava que deixou o cara bater num homem com uma capanga?