Mario de Andrade tem um conto que se chama Peru de Natal. Eu adoro esse conto. Mas o meu peru de natal não tem nada a ver com o dele.

Muito bem, o Natal estava chegando. E como é praxe em algumas empresas, os funcionários costumam receber regalos no fim do ano. Como uma gentileza natalina, a empresa banca o peru, o tender e até uma sobremesinha para todos se lembrarem de onde vem o dinheiro da família no momento da celebração.

Estava eu em Foz, com meu peru congelado em Foz, porém minha família estava em Curitiba, sem peru congelado em Curitiba. Telefonei para minha mãe e avisei que ela não precisaria comprar um peru para a ceia, pois eu já o tinha.

E chegou o momento de embarcar. Embrulhei o peru congelado em bastante jornal, coloquei em uma sacola térmica promocional especialmente desenhada para o kit de natal. Mas ainda faltava uma coisa: a caixa de papelão, afinal eu iria de avião e precisaria despachar o penoso.

Uma caixa eu já tinha. A outra pedi para um colega da firma, que prontamente me atendeu. Certo. Tudo embrulhado e devidamente fechado com fita crepe, parti. Ao chegar ao aeroporto, coloquei as caixas no raio-x da Receita Federal. Já estava retirando as caixas do outro lado quando a otoridade perguntou É material orgânico isso que você está levando aí? Sim, seu moço. É um peru congelado!
E ele: Ah, e lá em Curitiba não tem peru congelado?
… (certo)…
Tem sim, seu moço, mas é que esse aqui a firma deu de graça…
Ah, você trabalha na Sadia?
Não. E nisso a otoridade passava aquela maquininha nas caixas para investigar vestígio de drogas. (claro, porque se fosse um cão farejador, provavelmente ele salivaria. O cão, não a otoridade)
Então o seu moço fez lá uma brincadeira e eu, já vendo a fila se formando e se aglomerando atrás de mim, dei uma risadinha nervosa.
Tudo certo, já tinha colocado as caixas de novo no carrinho quando o seu moço falou Vou ter que abrir isso aí. Eu achei que ele estivesse brincando e saí. Feliz Natal eu disse. E ele Não, é sério, a sua caixa tem vestígio de cocaína. E deu uma porcentagem bem alta… você veio de táxi?
Sim, falei
Ah, porque às vezes os taxistas transportam outras coisas no porta-malas e acabam contaminando as outras bagagens…
Hum…
Foi você que embalou esses frangos?
FRANGOS! Pô… já rebaixou a minha ceia. Fosse FRANGO eu que não ia levar pra minha mãe fazer um FRANGO na ceia de natal… (claro que isso eu não falei, isso eu só pensei)
Sim, disse eu.

Então ele tirou tudo aquilo que eu havia colado de fita crepe e abriu a caixa. E a fila se avolumando. E o peru descongelando. E o homem passou a maquininha no peru. E eu fiquei esperando a porcaria da máquina dar o resultado. E ia calculando a possibilidade de que se o estoquista da Sadia fosse um noiado e se tivesse cheirado bem no dia que eu fui buscar o peru e se ele tivesse uma rinite e se tivesse espirrado justo sobre o meu peru, aquela máquina iria apitar de NOVO. E caso isso acontecesse, a otoridade iria abrir o meu peru para saber se estava “recheado”, no caso não de farofa. Só que se ele abrisse meu peru, então ele estaria perdido para sempre (o peru, não o moço), afinal eu que não ia ter a cara de pau de chegar para minha mãe, olha, prepara esse peru aberto e furado e descongelado e escangalhado para a nossa ceia de natal.

Mas, ou eu tive sorte, ou o estoquista não tinha rinite, ou ele não tinha cheirado, ou ele não era noiado, de modo que a maquininha não apitou, GRAÇAS A DEUS. Mesmo assim, a otoridade ainda quis averiguar a minha mochila. Momentos de tensão, afinal só Deus sabe por onde minha mochila passa, sempre despacho no avião, ando de ônibus, de táxi, de tudo mais com ela. E volta e meia passa um noiado, o que em Foz do Iguaçu não é raro, e espirra na sua mochila assim, desavisadamente, em plena luz do dia… de modo que a maquininha sem-vergonha APITOU. Sim, ela apitou acusando a quantidade de cocaína mínima suficiente para fazê-la apitar.

E todo aquele povo da fila atrás de mim, esperando com ansiedade a minha situação se resolver, soltou um suspiro de surpresa e de apreensão OOOOOHHHHH E eu pude entender naquele sonoro OOOOHHHH todo aquele povo dizendo péraê! vão abrir o peru da menina! A ceia dela estará perdida para sempre! Não deixem abrir o peru da garota! Ela nem tem cara de traficante! Ela é uma moça honesta, tem família!

É… disse a otoridade. Eu vou ter que abrir o seu frango.
OOOOOOOOOHHHHHH
Uns consultavam o relógio, outros se compadeciam… Mas eu olhei fixamente a autoridade nos olhos, enchendo-os de lágrimas, engoli seco sabendo que poderia ser presa por desacato, e perguntei Você realmente acha que eu estou levando drogas dentro deste peru Sadia congelado, temperado, e com válvula que indica quando o peru está pronto?

IIIIIIIIHHHHHHH Foi o som que se ouviu da fila. Momento tenso.

E a otoridade – ele tinha tipo o bigode do Magnum – ficou calado, pensou e então ele fez uso de toda a discricionaridade que emana do poder que ele detém para finalmente me liberar. Certamente foi a magia do natal (e toda essa baboseira que a gente assiste nos filmes da sessão da tarde que passam nessa época) que fez o Magnum mudar de ideia…

E eu sorri aliviada. Agradeci os aplausos da fila e segui feliz com meus frangos de natal, já imaginando-os devidamente assados e recheados na ceia de Natal.

Feliz Natal para vocês também!