Nada só acontece aos que não saem de casa.

“Marcelo! Marcelo! Venha levar CHUMBO GROSSO no rio Paraná!

Hoje, depois de alguns dias com o fígado de mau humor, resolvi sair para caminhar, tomar um sol, nesses poucos dias quentes de inverno. Ao atravessar a rua, um homem alto, gato, com uma mochila verde e olhos azuis chega perto de mim e pergunta: Dónde hay un parque por acá? 

O mochileiro gringo estava cansado, devia estar com sede, e queria descansar à sombra. Com minha tradicional simpatia e meu espanhol em progresso, disse ao rapaz que me acompanhasse, afinal eu estava indo para uma pista de caminhada onde havia algumas árvores e uns bancos em que ele poderia se sentar.

Ele gesticulava bastante e perguntei de onde ele vinha. Disse que era italiano, vinha de Roma e por conta dos desentendimentos provocados pelo caso Battisti não poderia renovar o visto para continuar no Brasil. Eloquente, ele chegou a argumentar com o agente da Polícia Federal. Disse que inclusive apoiava a decisão do Brasil em não extraditar e libertar o comuna. Mas não teve jeito. O romano estava desolado porque teria que voltar à Bella Italia – não o hotel, o país mesmo.

Andando e conversando, ele ia me contando sobre as cidades brasileiras que já tinha visitado. Sem me conhecer direito, disse que eu gostaria muito de ir à Roma.

Sei.

E então me contou com a maior naturalidade, que desceu a barranca do rio Paraná para TOMAR BANHO. Bem ali, na fronteira entre Brasil e Paraguai, ao lado da favela da Marinha. Ai, esses mochileiros estrangeiros comunistas demi-hippies…

Es muy peligroso! Eu disse. Ele arregalou os olhos azuis e continuou. Falou que viu o rio de longe e decidiu se banhar. Perguntou a uma senhora que estava sentada em um banco na frente de uma casa e ela disse que era muito seguro por ali (Ela deve ter imaginado que ele fosse paraguaio com muamba, ou devia ser a dona da boca…). Então ele foi se chegando, descendo a barranca… já se despindo… E de repente foi abordado por quatro homens que, muito sutilmente, deram um CORRIDÃO no gringo. Isso eu não sei nem em que língua foi.

Decerto, como bom romano, quando viu o rio Paraná, achou que estava diante algo equivalente à Fontana di Trevi e quis não lançar apenas uma moedinha, mas o corpo todo em sacrifício à Virgo do aqueducto… quase que leva chumbo grosso, tanto de polícia quanto de contrabandista.

Ainda escrevo um manual para mochileiros no Brasil.