Arquivos para o mês de: agosto, 2011

Até você viver um tempo na fronteira, você pode não se dar conta do que realmente significa morar muito perto de dois outros países, bem no limite do seu próprio país.

Além da diferença óbvia – você pega seu carro, anda 10 km e já está em um lugar onde as pessoas falam outro idioma e agem de forma estranha – há outras diferenças um pouco mais sutis. Quando eu morava em Curitiba, o local mais próximo para uma “escapada” de fim de semana era o litoral. Vivia enclausurada entre a serra e o imenso oceano que eu não poderia explorar.

Mudei-me para a fronteira e me dei conta de que estou mais perto de Asunción do que da minha cidade natal. Com esse tamanho tão gigante, dificuldades de transporte e grandes distâncias, o Brasil me expulsa pelos seus limites. Um dia peguei o avião em Puerto Iguazú e em pouco menos de duas horas já estava em mi Buenos Aires querido! Um fim de semana na capital portenha, para desopilar. Sair daqui para o exterior é muito mais fácil. Criei uma tal familiaridade com aduanas, pasos e documentos fronteiriços que eles não são mais um impedimento às viagens. São facilidades que me autorizam a explorar novos caminhos.

E um dia você chega à conclusão que está tão profundamente modificado por essa vida fronteiriça que ir mais além, para você, é bem mais fácil que pensar em voltar atrás.

Não sei se já contei isso antes para alguém, mas quando eu tinha 16 anos e estava começando o terceirão um amigo de turma muito próximo e que eu era “afins” morreu. Assim. Sem explicação. Na verdade foi um jeito bem bobo. Ele estava cortando a grama num dia de sol, passou com o cortador sobre o fio da energia e foi eletrocutado. Foi horrível.

Depois, mais tarde, alguns outros amigos meus bem íntimos também morreram. Sempre que penso neles, penso em seus segredos que estão guardados comigo e que foram para o túmulo com eles. Se eles fossem escrever as suas Memórias Póstumas, certamente algumas passagens se refeririram a mim. Será que devo revelar esses segredos a alguém?