Filmes que se passam em Nova Iorque sempre têm aquele som de sirene de polícia e ambulância ao fundo. Buzinas, para dizer que a cidade é grande, e movimentada, e sempre tem alguém de plantão para resolver os problemas.

Aqui em Foz moro ao lado do Corpo de Bombeiros. É tão perto que posso ouvir aquela sirene que toca antes dos bombeiros saírem para atender alguma ocorrência. Acho que é isso que me engana muitas vezes e me faz acreditar que estou vivendo em uma cidade grande.

Mas essa sensação dura pouco.

Basta eu sair e ver que os pedestres insistem em andar pelo meio da rua, como numa cidade pequena em que o único carro que existe é o do prefeito.

Estou numa festa, vestida de branco. Tento cantar, mas não sai voz alguma. Você tenta me ensinar uma melodia no piano, mas não sei tocar. Um piano de quilômetros. Estou entediada e de repente você aparece vestido de Elvis, aquele macacão branco, com pedras coloridas. Você usa seu poder de roupa de Elvis, aponta para o piano e o faz tocar como uma orquestra inteira. Já me tira para dançar e de repente estamos flutuando pelo supermercado. Fazemos travessuras com todas aquelas mercadorias mais importantes que as outras, que ficam guardadas sob uma fechadura. Chamam a segurança e você era o segurança. Fim.

Ser só não se trata apenas de morar só. É preciso saber conviver consigo mesmo, mesmo convivendo com alguém. Mais do que saber dividir, saber guardar só pra si, só… isso é difícil. É segredo.

Mario de Andrade tem um conto que se chama Peru de Natal. Eu adoro esse conto. Mas o meu peru de natal não tem nada a ver com o dele.

Muito bem, o Natal estava chegando. E como é praxe em algumas empresas, os funcionários costumam receber regalos no fim do ano. Como uma gentileza natalina, a empresa banca o peru, o tender e até uma sobremesinha para todos se lembrarem de onde vem o dinheiro da família no momento da celebração.

Estava eu em Foz, com meu peru congelado em Foz, porém minha família estava em Curitiba, sem peru congelado em Curitiba. Telefonei para minha mãe e avisei que ela não precisaria comprar um peru para a ceia, pois eu já o tinha.

E chegou o momento de embarcar. Embrulhei o peru congelado em bastante jornal, coloquei em uma sacola térmica promocional especialmente desenhada para o kit de natal. Mas ainda faltava uma coisa: a caixa de papelão, afinal eu iria de avião e precisaria despachar o penoso.

Uma caixa eu já tinha. A outra pedi para um colega da firma, que prontamente me atendeu. Certo. Tudo embrulhado e devidamente fechado com fita crepe, parti. Ao chegar ao aeroporto, coloquei as caixas no raio-x da Receita Federal. Já estava retirando as caixas do outro lado quando a otoridade perguntou É material orgânico isso que você está levando aí? Sim, seu moço. É um peru congelado!
E ele: Ah, e lá em Curitiba não tem peru congelado?
… (certo)…
Tem sim, seu moço, mas é que esse aqui a firma deu de graça…
Ah, você trabalha na Sadia?
Não. E nisso a otoridade passava aquela maquininha nas caixas para investigar vestígio de drogas. (claro, porque se fosse um cão farejador, provavelmente ele salivaria. O cão, não a otoridade)
Então o seu moço fez lá uma brincadeira e eu, já vendo a fila se formando e se aglomerando atrás de mim, dei uma risadinha nervosa.
Tudo certo, já tinha colocado as caixas de novo no carrinho quando o seu moço falou Vou ter que abrir isso aí. Eu achei que ele estivesse brincando e saí. Feliz Natal eu disse. E ele Não, é sério, a sua caixa tem vestígio de cocaína. E deu uma porcentagem bem alta… você veio de táxi?
Sim, falei
Ah, porque às vezes os taxistas transportam outras coisas no porta-malas e acabam contaminando as outras bagagens…
Hum…
Foi você que embalou esses frangos?
FRANGOS! Pô… já rebaixou a minha ceia. Fosse FRANGO eu que não ia levar pra minha mãe fazer um FRANGO na ceia de natal… (claro que isso eu não falei, isso eu só pensei)
Sim, disse eu.

Então ele tirou tudo aquilo que eu havia colado de fita crepe e abriu a caixa. E a fila se avolumando. E o peru descongelando. E o homem passou a maquininha no peru. E eu fiquei esperando a porcaria da máquina dar o resultado. E ia calculando a possibilidade de que se o estoquista da Sadia fosse um noiado e se tivesse cheirado bem no dia que eu fui buscar o peru e se ele tivesse uma rinite e se tivesse espirrado justo sobre o meu peru, aquela máquina iria apitar de NOVO. E caso isso acontecesse, a otoridade iria abrir o meu peru para saber se estava “recheado”, no caso não de farofa. Só que se ele abrisse meu peru, então ele estaria perdido para sempre (o peru, não o moço), afinal eu que não ia ter a cara de pau de chegar para minha mãe, olha, prepara esse peru aberto e furado e descongelado e escangalhado para a nossa ceia de natal.

Mas, ou eu tive sorte, ou o estoquista não tinha rinite, ou ele não tinha cheirado, ou ele não era noiado, de modo que a maquininha não apitou, GRAÇAS A DEUS. Mesmo assim, a otoridade ainda quis averiguar a minha mochila. Momentos de tensão, afinal só Deus sabe por onde minha mochila passa, sempre despacho no avião, ando de ônibus, de táxi, de tudo mais com ela. E volta e meia passa um noiado, o que em Foz do Iguaçu não é raro, e espirra na sua mochila assim, desavisadamente, em plena luz do dia… de modo que a maquininha sem-vergonha APITOU. Sim, ela apitou acusando a quantidade de cocaína mínima suficiente para fazê-la apitar.

E todo aquele povo da fila atrás de mim, esperando com ansiedade a minha situação se resolver, soltou um suspiro de surpresa e de apreensão OOOOOHHHHH E eu pude entender naquele sonoro OOOOHHHH todo aquele povo dizendo péraê! vão abrir o peru da menina! A ceia dela estará perdida para sempre! Não deixem abrir o peru da garota! Ela nem tem cara de traficante! Ela é uma moça honesta, tem família!

É… disse a otoridade. Eu vou ter que abrir o seu frango.
OOOOOOOOOHHHHHH
Uns consultavam o relógio, outros se compadeciam… Mas eu olhei fixamente a autoridade nos olhos, enchendo-os de lágrimas, engoli seco sabendo que poderia ser presa por desacato, e perguntei Você realmente acha que eu estou levando drogas dentro deste peru Sadia congelado, temperado, e com válvula que indica quando o peru está pronto?

IIIIIIIIHHHHHHH Foi o som que se ouviu da fila. Momento tenso.

E a otoridade – ele tinha tipo o bigode do Magnum – ficou calado, pensou e então ele fez uso de toda a discricionaridade que emana do poder que ele detém para finalmente me liberar. Certamente foi a magia do natal (e toda essa baboseira que a gente assiste nos filmes da sessão da tarde que passam nessa época) que fez o Magnum mudar de ideia…

E eu sorri aliviada. Agradeci os aplausos da fila e segui feliz com meus frangos de natal, já imaginando-os devidamente assados e recheados na ceia de Natal.

Feliz Natal para vocês também!

Que belo dia para ligar para telemarketings. Esse foi meu pensamento na última terça-feira. Depois de ter comprado pilhas, seis pilhas, que não funcionavam, ao invés de voltar às Lojas Americanas, resolvi ligar para o 0800. Diversão de graça.

Muito bem. Liguei três vezes até conseguir ser atendida. Uma moça muito simpática atendeu e perguntou qual era o problema. Não funcionam as pilhas, moça. E ela: pacote promocional? Disse, sim, leve seis, pague cinco e fique sem nenhuma! Grande promoção. Rapidamente ela pegou meus dados e gerou uma autorização para postagem grátis. Vou enviar as pilhas para a Rayovac e eles me enviam pilhas novas. Muito bem.

Resolvi que era meu dia de sorte. Liguei novamente para um 0800, desta vez da Tim. Queria cadastrar números prediletos para falar a 12 centavos o minuto. Cinco ligações perdidas. Mas não desisti, sou persistente. Na sexta vez atendeu a moça, disse o número do protocolo e informou: o sistema apresenta uma certa lentidão, a senhora aguarda? sim, claro, acha que vou desistir bem agora que estou falando com uma pessoa?

Forneci meus dados e “não desligue senhora”, “só um momento… mais um momento senhora” e eu ali tranquila esperando. Fui até a janela, voltei… só mais um momento… aguarda? lixei uma unha que tava pegando, mais um momento. Voltei à janela e foi então que, só mais um instante, vi uma barata GIGANTESCA, pousada no trilho. Olhei para a barata, ela olhou para mim, um momento aguarda? Sim. As duas antenas igualmente gigantescas se mexendo, iam de cima a baixo, alternadamente. E eu esperando para cadastrar meus números prediletos, mas o sistema com lentidão. eu então segurando o telefone com o ombro, busquei uma vassoura. A ideia era cutucar a barata e jogá-la lá de cima, do sétimo andar, para que voltasse para a sarjeta de onde veio. Mais um momento senhora. E ouviu-se um grito na conversa que (eles me garantiram) estava sendo gravada. A moça do outro lado se assustou, mas ao invés de perguntar se estava tudo bem, ela disse aguarde mais um instante! Tudo bem, eu disse. E a barata saiu correndo, se escondeu em algum canto. E eu com a vassoura. Dessa vez, fui la buscar o inseticida.

Seguiram-se instantes de apreensão e medo. Cadê a barata? Mais um momento, por favor, não desligue…. Vi a danada no canto… parada. Esguichei um jato certeiro de veneno. Ela correu como nunca! Eu gritei! E mais um instante senhora! Enquanto eu acompanhava de longe a barata parar e virar de barriga pra cima chacoalhando as patinhas, A LIGAÇÃO CAIU.

Agora quem ouvir a gravação gerada pelo protocolo 2009096365 vai conferir registrada a minha luta contra a barata que surgiu do nada.

Estive todo esse tempo tentando escalar as paredes lamacentas do precipício ao mesmo tempo em que lambia as minhas feridas velhas e purulentas. Cutucava as casquinhas, como aquelas dos joelhos de criança. Escorregava um pouco, lambia um pouco e seguia para o álcool, alto e avante! Justo agora que consegui ficar de pé a poucos metros da beira do abismo, ouço o canto da sereia abissal… de novo! Daqui de cima o canto é ainda mais encantador. Ah, que belo canto! Antes fosse uma mansidão de mar azul, o lar natural das sereias, mas é um precipício, um fosso, o que é ainda mais atraente. Cair sempre dá um frio na barriga, já se afogar eu não sei como é. Eu sei nadar. Cair é outra história. Ainda se eu escorregasse, a culpa seria minha… mas esse canto…

Vou sumir daqui antes que.

Ps.: tenho certeza absoluta de que alguém já usou essa figura e exatamente com o mesmo sentido. Isso faz do meu texto um clichê? Sempre me esfolando.

Meu tio tinha uma lanchonete lá em Almirante Tamandaré. Uma vez uma repórter falou que nunca tinha ido pra Almirante Tamandaré fazer pauta feliz, só tragédia. E a coxinha. Meu tio tinha uma lanchonete lá. Aí num dia de chuva teve uma briga, o corno entrou na lanchonete disposto a matar ou morrer. Atirou no primeiro que viu. O cara da coxinha. Cheguei lá o cara caído no chão da lanchonete. E a coxinha. A mão engordurada. E a coxinha mordida.

E o cara não tinha nem chegado na galinha.

Faz muito tempo, eu vinha andando bem calma pela rua, depois de uma quinta-feira de trabalho e alguns problemas pessoais. Eu poderia ter pego o ônibus num ponto mais perto, mas resolvi andar por aquela parte decadente do centro da cidade, com a qual minha alma estava combinando tanto aquele dia.
Por isso, por um sentimento de pertencimento, e também por dois policiais militares ali na lanchonete gordurenta, engordurando seus quepes, eu me sentia segura. Já tinha passado por muitas cidades e reconhecia que essa era definitivamente a minha cidade, com estação tubo e tudo.

Não sei porque estranhei tanto esta cena que virá a seguir. Na verdade eu vinha pela calçada pensando porque aquela maldita loja do Chico, que vende aquelas velharias para quem tem carros caindo aos pedaços, mas insiste em colocá-los para rodar nesse trânsito caótico, porque diabos aquela loja estava fechada. É óbvio que ela estava fechada porque já passava da hora que os funcionários fecham os escritórios e vão para casa. Àquela hora, os funcionários do centro já deviam estar em casa, ou se apertando em algum Colombo-CIC rumo à região metropolitana. Mas sabe que eu estava com aquela música do Cazuza na cabeça. Ah é, daquele viado? Que porra, viado é você, um cara de bosta. Esse cara era um gênio, toda a merda que você escrever na vida não vai chegar nem perto da pior cagada que esse cara escreveu. Então, preste atenção, sabe aquela música codinome beija-flor? Sei, eu até gosto do Cazuza. Então, a letra da música diz assim desperdiçando meu mel, devagarzinho, flor em flor, entre os meus inimigos, beija-flor. O cara escreveu essa música prum cara que ele apelidou de beija-flor e sabe porque? Não, nem sei. É claro que você não sabe, você nunca leu um livro na vida. É um ignorante. Então ele chamava o cara de beija-flor porque o cara beijava o cu dele e ele achava o máximo. Acontece que o cara era um galinha, porque, você sabe, você é um ignorante mas já deve ter visto um beija-flor. Já já vi sim. Então, o beija-flor sai por aí de flor em flor. Mas só ele podia chamar o cara de beija-flor, saca? Mas você não entende nada de música, nem sei porque estou falando isso para você, é como jogar pérolas aos porcos. Termine o seu café que a gente vai por ali. Preste atenção nos detalhes. Tudo bem vou prestar. Eu tava andando por aqui, esse é o lugar mais fedorento e odioso dessa cidade. Tudo é limpo, mas por mais que os garis varram, nunca vão tirar esse fedor de mijo e vômito que a cada madrugada os bêbados e as putas derramam aqui. Sem falar na merda que os mendigos cagam. Você pode passar aqui ao meio-dia que o fedor ainda vai continuar. A tia da banquinha de doces ali na esquina todo dia joga creolina e esfrega a calçada, mas não adianta nada. De noite são os bêbados e de dia são os camelôs, centenas deles, vendendo porcarias made in china. Quando as lojas fecham e os camelôs vão embora o fedor fica ainda mais pestilento nesse terminal, e tava tudo fechado quando passei aqui naquele dia. Nesse tubo fica uma fila de gente que não cabe naquela merda de estação de vidro que parece um shopping. Tão na merda, mas o vidro é curvado. Dois caras saíram da fila de repente, um pit boy de academia e um cara normal, como eu ou você, com aquela camisa de manga curta, transparente de tão puída, e uma capanga de couro. Ver a capanga foi demais pra mim. O cara levando porrada com a capanga debaixo do braço. O pit boy segurou o cara pela gola da camisa e deu umas cinco joelhadas no estômago do homem, até meio barrigudo. Pelo jeito que o cara batia com certeza ele fazia muay thai. Aquelas lojas fechadas, o povo todo na fila, mas ninguém falava nada, o silêncio fazia eco. Depois que o cara cansou das joelhadas, começou a dar socos na barriga do sujeito, que também não gritava, não pedia socorro, se limitava a proteger a cabeça com a mão que não estava segurando a capanga. Foram muitos socos, um barulho seco. Até que o pit boy acertou a cabeça do homem com um soco. Fez barulho, e o homem gritou. Deve ter doído na mão do pit boy também, porque foi aí que ele parou. Soco é para partes moles, não pra mirar na cabeça, o pit boy não deve ter muitas lutas no currículo, e na academia ele deve lutar de luva. A mão é frágil, tem muitos ossos, e o crânio é feito para agüentar porrada. Mas deve ter cortado o couro cabeludo do cara, porque ele urrou e se agachou, sangrando como um porco, o sangue escorria e fazia barulho e respingava quando caía no chão. O pit boy saiu andando de costas e falou ‘quero ver passar a mão na bunda dela agora, palhaço’. Aí chegou uma cachorra de blusa decotada e calça branca, bem putinha. E eu me perguntando onde essa vaca estava que deixou o cara bater num homem com uma capanga?

Se nada se perde
tudo se transforma
quero ver quem me diz
com que forma está agora
aquele amor que eu perdi
numa praça de outrora

O famoso químico
em nada me auxilia
com a sua teoria
não entende da alquimia
do meu amor anímico

Leis é de se respeitar
não se pode contrariar
mas qual é a autoridade
que vai fazer imperar
tão moderna tradição
e vir multar meu coração?

Ai meu deus que grande embrulho!
Diz o meu amigo Túlio,
Sem quem lhe dê boa noite
Faz da língua um açoite,
E maldiz a sua sina
De não pegar menina.

Já estou fazendo o mesmo.
Quando vem o por do sol
Dou um nó no meu lençol
E da noite eu fujo a esmo.
Procuro não dormir,
acho uma data pra carpir.